Publicado por: biancaceloto | novembro 26, 2008

Empregos verdes e desenvolvimento

Uma economia verde, baseada em princípios de sustentabilidade e com forte foco em produtos da biodiversidade brasileira e global. Este é um caminho que vem sendo apontado como possível nesta época de transição da era dos combustíveis fósseis para a da bioenergia.

Gerar mais empregos e proteger o meio ambiente já foram coisas contraditórias no modelo exploratório dos recursos naturais que prevaleceu desde o início da era industrial. Agora, face à crise social e ambiental que o planeta enfrenta, essas duas buscas aliam-se nos chamados “empregos verdes”.

Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mapeou 2,3 milhões de novos empregos gerados só no setor de energia renovável e prevê que essa área deve alcançar 20 milhões de vagas até 2030. A OIT também destaca em seu relatório “Empregos Verdes: Trabalho Decente em um Mundo Sustentável e com Baixas Emissões de Carbono” que as oportunidades de trabalho voltadas para o desenvolvimento em harmonia com a natureza surgem em todas as áreas: construção civil, indústria, comércio e serviços.

Desafio duplo

Ignacy Sachs, um dos grandes defensores dessa ecossocioeconomia, avalia que estamos diante de um desafio duplo: “Precisamos de soluções interessantes para as duas áreas: a urbana e a rural. No século XXI, não podemos nos omitir de repensar o desenvolvimento agrícola/rural de forma includente”, destaca o professor honorário na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, França.

“A idéia de que o mercado se auto-regula já causou muito dano. Esta última crise financeira é mais uma prova de que precisamos de planejamento e da atuação dos Estados, elaborando e executando boas políticas públicas”, continua Sachs, frisando que mesmo os empregos verdes podem manter as diferenças sociais se repetirem a concentração de renda nas mãos de poucos.

O professor sugere a criação de sistemas integrados de manufatura de bioprodutos, administrados por pequenos produtores cooperados. “Quando falamos de empregos verdes, é preciso ir além dos catadores, da reciclagem e da agroenergia”, avalia. Sachs exemplifica imaginando um grupo de 500 assentados, cada um com 10 hectares plantados com dendê, que dá fruto o ano todo e é utilizado na fabricação de biodiesel, e mais 5 hectares cultiváveis. Assim, estaria formada uma vila que demandaria a instalação de escola, posto de saúde, opção de lazer etc. Cada família poderia produzir seus próprios alimentos e, juntos, eles poderiam organizar uma agroindústria em que tudo se aproveitaria.

Sachs acredita que a floresta e a agricultura podem, juntas, oferecer todo o necessário para alimentar e mover a sociedade da biomassa. Para ele, é possível extrair da biodiversidade da Amazônia, por exemplo, muita energia e comida, sem criar nenhuma nova área desmatada. “O que existe de terras degradadas é o suficiente para transformar o Brasil no maior produtor mundial de biomassa, seja para energia, alimentação ou produção industrial”, assegura o professor.

Além disso, ele propõe soluções integradas na produção e descarte de resíduos. Cascas de oleaginosas ou pontas de cana, por exemplo, podem ser processadas para ração de bois, que, criados com esse alimento, deixariam de ocupar tanto pasto. “Há mais gente no campo do que se diz. Se o avanço for altamente mecanizado, as famílias de agricultores continuarão a ser forçadas para a periferia das cidades.”

Ampliando a visão

Sachs comenta ainda que, além dos postos ligados a novas tecnologias, há um campo enorme em manutenção, que também ajuda na conservação ambiental. “Em vez de se fazer tudo novo, muita mão-de-obra pode ser empregada em reparos e na recuperação da infra-estrutura já instalada, gerando empregos para pessoas com menos preparo também nas cidades”, aconselha o professor.”Estes não são chamados de ‘empregos verdes’ propriamente ditos, mas seu efeito é bom do ponto de vista social, econômico e ecológico”, conclui, ampliando o conceito de emprego verde para todo trabalho decente e ambientalmente correto.

Fonte: Neuza Árbocz, para a Envolverde


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